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Mês:

outubro, 2012

A tortura: torturados e torturadores (segunda parte)

O pseudo-patriotismo “como o último refúgio dos canalhas”*, seguido pelo assassinato do assassinado.

Acreditar na própria morte como um evento mais do que possível, mais do que provável, absolutamente inapelável, apenas sem o seu tempo definido, constitui um pesadelo para muitos homens. A hora da morte é, de cada um de nós, incerta, mas, sempre afiguramos essa hora como  situada num espaço vago e longínquo, não imaginamos que ela tenha uma correlação qualquer com o dia começado, e possa até o cair da noite estar ao nosso lado.  

Os militante políticos, que empunhavam durante a ditadura militar a bandeira que revolucionaria toda a sociedade, estavam convencidos de que tinham diante de si um espaço de tempo infinitamente adiável antes que os matassem ou prendessem, ou talvez, quem sabe, conseguissem chegar à “vitória final”, numa luta encarnecida. Esse era o amuleto que preservava indivíduos como Pedro Alexandrino, não do perigo, mas do medo do perigo.

No entanto, para a maior parte daqueles bravos combatentes, o tempo não foi tão elástico. Muitos morreram com as armas nas mãos, outros sob as torturas mais ignóbeis. Outros ainda, torturados, esmagados e dilapidados, lograram permanecer nos cárceres e foram mantidos vivos. No entanto, uma vez presos,  poucos tiveram a coragem ou a oportunidade de optarem heroicamente pelo suicídio, fugindo ao trucidamento e às informações que os agentes da ditadura tanto queriam arrancar-lhes. É a respeito de um desses heróis que falaremos a seguir.

Pedro Alexandrino fora preso há a alguns dias e estava no centro militar do Doi-Codi, quando foi transferido da cela coletiva para uma solitária. Nesse dia subira para uma das sessões de tortura e recorda-se de que estava na cadeira-de-dragão, quando, de repente, os torturadores que o interrogavam,  interrompem os choques elétricos perante um oficial fardado que entrava. A cena era surrealista. Ele, um jovem de menos de vinte anos de idade, nu, amarrado a uma cadeira com fios elétricos que tinham terminações em seus escrotos e numa orelha; ao seu lado, um torturador conhecido com Paulo Bexiga, tais as marcas de varíola no rosto mau, e atrás de uma mesa, a tomar notas, um capitão de Exército conhecido como Homero que, imediatamente, levanta-se à entrada do mais graduado.

“À vontade”, diz o major Coelho para os subalternos. “Esse terrorista de merda vai ou não vai colaborar, capitão? Parece que vocês estão tratando este merda a pão-de-ló”. E, dirigindo-se ao preso: “Vocês querem escravizar esse país, implantar uma ditadura, entregar o Brasil para os russos e os cubanos! Saibam que o Exército Brasileiro tem patriotas que vão esmagá-los, arrancar os olhos e a alma de vocês, não vamos permitir  que entreguem o Brasil”. Os olhos castanhos do oficial toldaram-se por um púrpura turvo. As luzes de inteligência humana, perdendo a expressão humana, projetavam-se como olhos de alienígenas de certas criaturas sem nome da natureza. Se o primeiro olhar trazia a mensagem da serpente, quando ele voltou a falar, o segundo possuía o impacto paralizante e mortal da górgona. “Desçam esse terrorista para a cela, tem um outro mais quente que acabou de cair”. Alexandrino teve interrompido seu martírio para que outro fosse barbarizado.

Quando o levavam ouviu um murmurinho, comentário entre dois sicários, agentes da morte, que era a chave para que o deixassem em paz por algum tempo:“Amanhã cai o Lamarca”.

Era já madrugada quando Alexandrino foi despertado pela abertura da cela-forte. Disse-lhe o carcereiro cognominado Marechal: “Você vai pra outra cela”, que era a coletiva. Traziam das salas de tortura, amparado nos braços, alguém que iria substituí-lo no isolamento. Alexandrino por instantes pode ver o rosto de uma pessoa que o impressionaria para toda a vida. Nele se estampava a pureza, a essência humana da sinceridade, num corpo que mesmo alquebrado pela tortura de um dia e uma noite, denotava beleza e muita naturalidade. Alexandrino viu nos olhos de Macarini, pois assim se chamava o nosso herói, que os verdadeiros terroristas, aqueles que se auto-denominavam “patriotas” não conseguiriam pegar o grande comandante Lamarca no “outro dia”.

Pela manhã, já o Marechal chega com seu grito idiota para despertar aqueles que talvez dormissem nas masmorras: “Arruda, dá-lhe milho!” E já tem suas ordens. “Alexandrino não come hoje, vai subir”. Era o anúncio de nova sessão de torturas. Quando sai da sua cela ele vê, também fora do isolamento, o combatente que o substituíra no dia anterior. Ao lado dele um médico ou enfermeiro, desses que juram por Hipócrates, mas rendem culto a Belzebu, aplicando-lhe emplastos na face machucada, enquanto ele mesmo faz, com esforço, a própria barba. Marechal tem pressa para com Macarini e lhe diz: “A equipe do capitão Thomás está esperando para te levar pro ponto-de- encontro!”

No olhar que trocam, Alexandrino não sente desespero, nem dor, mas o orgulho, a pureza e a determinação de quem irá praticar um ato de tal grandeza e majestade que vale por toda uma humanidade. São segundos que valem por uma vida. Enquanto Alexandrino é levado para a continuidade da tortura interrompida, Macarini é conduzido pelo capitão Thomás e jogado no porta-malas de uma “perua” C-14, presente e colaboração da Chevrolet americana para a “patriótica” repressão política.

O tempo passado em tortura não tem a dimensão daquele que transcorre em nosso dia a dia. Um preso torturado é incapaz de se lembrar dos detalhes do que lhe foi perguntado e, muitas vezes, mesmo do que falou, pois a correlação temporal quase que se defaz no processo de tortura. Pedro Alexandrino não sabe se foi após uma hora, duas ou talvez três horas quando ouviu o grito do bando de chacais que retornava do ponto- de- encontro ao qual haviam levado Macarini. “O ponto era frio, não tinha nada de Lamarca!”. De repente, todos os sequazes que o interrogavam deixaram-no a sós e desceram para o pátio onde as equipes de “busca”estacionavam seus carros. Pelo vitrô pode ver que tiravam do porta-malas da “perua”um corpo todo ensanguentado e disforme, corpo que já não podia sofrer e que, mesmo assim recebeu ponta-pés e cuspe daqueles verdadeiros terroristas, que se arvoravam o direito à vida e à morte e que nem mesmo aos mortos devotavam qualquer respeito. Alexandrino ouviu de um dos assassinos: “O desgraçado se jogou do Viaduto do Chá e quando tentei segurá-lo, quase me levou junto, filho-da-puta!”

Se por um lado, custa-nos  acreditar até que ponto pode-se corromper a natureza humana, por outro lado, atitudes com as de Macarini, que teve sua vida ceifada aos dezenove anos, mostra-nos os píncaros do amor ao próximo e de entrega a que o mesmo homem pode chegar.

*A frase “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas” foi escrita por Samuel Johnson (1709/1784).  

O assassinato do assassinado

Os Primeiros de Maio, por décadas e décadas, foram dias de luta dos trabalhadores por direitos e conquistas, sua própria afirmação como classes sociais. Na ditadura Vargas, o peleguismo trabalhista atrelado ao Estado, tentou transformá-los em dias dedicados a festas e shows, enquanto a polícia reprimia os atos que fossem reivindicatórios ou políticos.

Na História, entretanto, os ditadores e as oligarquias sempre reprimiram esses dias. E foi exatamente isso o que ocorreu sob os tristes céus brasileiros de 1970. Sob a feroz ditadura militar, poucos grupos organizados arriscavam-se a se manifestar. Um deles, um pequeno núcleo partidário, realizou a distribuição de panfletos no pátio de esportes em Vila Zélia, no ABC paulista. Um dos coordenadores desse pequeno grupo era um ex- estudante de Faculdade Politécnica que decidira assumir uma experiência proletária, deixando a faculdade e trabalhando numa indústria química. Seu nome, Olavo Hansen.

Preso por esse motivo, distribuição de um panfleto, ele e mais alguns seus companheiros foram encaminhados à Oban, onde nem sequer foram interrogados e, depois, ao DOPS. Foram recolhidos à diversas celas e somente no dia cinco de maio Olavo subiu para interrogatório, onde foi supliciado por mais de seis horas por fascínoras como os delegados Cuoco, Milton Dias, investigadores como Sávio e Campeão, todos filhotes de Fleury, que por esses tempos estava relativamente afastado do DOPS. Foi torturado com choques emitidos por tubo de imagem de televisor, com altíssima voltagem e não desprezível amperagem, que associado ao pau-de-arara e pancadas na região dos rins, provocaram um quadro de insuficiência renal.

Alexandrino foi transferido para o DOPS no dia oito de maio e, por coincidência, colocado na mesma cela que Olavo. Olavo não caminhava e suas extremidades, braços, mãos, pernas e pés apresentavam-se altamente edemaciadas, praticamente já não urinava. Soube pelos outros companheiros que, após insistirem com a carceragem, de que o preso necessitava atendimento médico, um tal de Dr. Ciscato o havia examinado e recomendado “água”, um ou dois dias atrás. O caso, para um estudante de medicina era claro de insuficiência renal; ou se fazia o pronto socorro médico ou ele morreria. Todos os presos pressionaram a carceragem e, finalmente, nesse mesmo dia, Olavo, já inconsiente, já em coma, foi retirado da cela para ser “tratado”.

No dia treze de maio os familiares de Olavo foram comunicados de sua morte. Os legistas que assinaram o laudo da causa atestaram: “parada renal com sinais de envenenamento por Paration”, veneno para ratos.

A distribuição de um simples panfleto custou ao verdadeiro brasileiro Olavo Hansen uma  vida que foi duplamente assassinada. Primeiro pela insuficiência renal aguda, fruto da tortura recebida  e, depois, pela aplicação na veia, quando moribundo ou já morto, de veneno. Contra seus bárbaros algozes, banalizadores do mal, nada foi e talvez nunca será feito por nossa pobre democracia.

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“Entre- Grades”

Nos próximos episódios, retroagiremos alguns anos, de tal forma que focalizaremos nosso biografado no período de 1970 a 1974, adequadamente denominado “Entre-Grades”.

A tortura: torturados e torturadores (primeira parte)

“A tortura dilacera o corpo do supliciado, quando não o destrói; é verdade que muitas vezes, sobrevivendo, o organismo consegue, entre perdas e danos, restabelecer-se no decorrer do tempo;  já as marcas, que como tatuagem, a tortura imprime na alma do torturado, essas jamais se apagam, são para sempre, para toda uma vida. E não se apagam porque a tortura buscou reduzir o torturado ao quase nada, fez com que ele rompesse com suas crenças e valores, corrompendo nele muito do  que possuía de humano, num processo de dilaceração de sua personalidade”.

Dessa maneira, Alexandrino começou a se referir à dura e radical experiência, que de certa forma, reproduz a de centenas, milhares, talvez milhões de outros seres humanos que passaram por esse maldito processo.

Decidi que deveria tratar tal assunto de um modo um pouco diferente dos episódios anteriormente narrados; ao lado do relato vivencial do nosso torturado, eu busco que ele me forneça algumas respostas, como a que para mim a todas antecede: afinal, quem é o torturador?

“O torturador, via de regra, é um ser humano comum, de tão comum que ele mesmo se sente  supérfluo, pois nada encontra em si que o diferencie da massa humana, nada tem de singular, é tão somente alguém profundamente frustrado, que se sente como um ninguém, na medida em que ser “ninguém é pior que ser mau”, já dizia um autor. Ele quase sempre é um empregado das forças repressivas do Estado, que como todo  e qualquer policial ou militar, foi treinado e submeteu-se a somente cumprir ordens, sendo incapaz de questioná-las. Mas isso não basta, de modo algum, para que ele se transforme em torturador, um assassino frio de pessoas indefesas e esmagadas fisicamente. Esse é um caminho que o verdugo  trilha por sua  livre e espontânea vontade.”

Alexandrino relatou-me o sucedido com uma companheira, a quem muito presa, em determinada sessão de tortura a que fora submetida na Polícia do Exército. A moça, dependurada no torpe e degradante pau-de-arara (aparentemente uma invenção antiga, herança do colonizador português), era submetida a choques elétricos que lhe percorriam o corpo nu, assim como à torturante aplicação de palmatórias nos pés expostos. Os verdugos eram dois, um sargento e um tenente; em determinado momento, o sargento chamou um soldado, que estava apenas de guarda, e ordenou-lhe que rodasse a manivela do choque elétrico, dizendo-lhe: essa manivela também é a chave para a promoção na carreira.

A contra-gosto o soldado o fez uma vez, mas o grito da moça atordoou-o e ele parou; disse sentir-se mal com aquilo e o sargento ameaçou quebrar-lhe a mão se vacilasse em um novo girar; no entanto,  manteve-se firme, refletiu, não cumpriu a ordem recebida e  não tornou a virar a manivela. Soube dizer não à tortura!

Caso aquele jovem houvesse aceito tomar parte no jogo crapuloso, transformando-se, com a rotina de maltratar pessoas indefesas, em um torturador, ele estaria agindo todo o tempo sob ordens  superiores sem nada questionar, e não por qualquer tipo de ideologia. Afinal, como pode possuir uma ideologia se ele nem mesmo possuiria o hábito de pensar? Ele, com o tempo, transformar-se-ia em um tipo de animal imprevisível, parecido mais a um cão hidrófobo, pois quem tortura despe-se do humano sentir. Transforma-se em uma excrecência humana, tumores infectos na memória do torturado ou de quem com eles conviveu. Quanto mais o mal torna-se banal, ele deixa de gerar, naquele que o cometeu, quaisquer remorsos ou tormentos. Vemos ainda hoje criminosos como Videlas, Ustras, os canhestros sucessores de Fleury defenderem seus atos, ostentarem orgulho pelas torpezas de que foram comandantes e agentes participantes.

Mas nem só de policiais civis e militares e elementos das Forças Armadas compunham-se os aparelhos de tortura e extermínio. Também civis deles  participavam. Havia alguns moços, outros universitários e ainda recém-formados, que se auto-denominavam comandos anti-comunistas, versão facista de coloração verde-amarela. E também alguns empresários, que doavam dinheiro “por fora” para os principais verdugos. Alguns desses, aliás, compraziam-se em assistir a sessões de tortura, principalmente de mulheres, mas essa já será uma outra história.

Apenas para complementar a resposta, disse-me Alexandrino, “ao contrário dos torturadores dos porões, os grandes criminosos, os mandantes, os mantenedores, esses sim são movidos  por ideologias. E essas nada mais são que o conjunto de suas ideias deturpadas, que para eles formatam uma ideia de sociedade essencialmente autoritária, excludente, composta por senhores e escravos, num mundo acanalhado, semelhante a eles próprios”.

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“Sobrevivendo nas Sombras”

Na difícil senda do contrabando

Avançamos novamente no tempo e retornamos ao mês de junho de 1976, dias após a morte de Juan José Torres.

Pedro Alexandrino trabalhava durante o dia em uma Cooperativa e à noite, após o reconhecimento de seus créditos, seguia um curso na Universidade Nacional de Buenos Aires. Evitar de todos os modos, tanto na Universidade quanto no trabalho, emitir opiniões políticas, jamais participar das reuniões estudantis ou sindicais, numa Argentina efervescente de medos, heroísmo e participação política era muito difícil, no entanto, mais que nunca necessário para seguir sobrevivendo nas sombras.

Uma determinada pessoa muitas vezes nos atrai sem que nem mesmo saibamos por quê. Ainda hoje, Alexandrino se questiona quanto à existência de algum tipo de  química, de magnetismo ou seja lá o que for, que permite uma pessoa de esquerda identificar uma outra semelhante dentre tantas a nos rodear. Pois foi justamente esse tipo de magnetismo, ou chamem-no como quiserem, que lhe salvou a vida.

Norma não era exatamente uma mulher bonita, mas tinha um olhar claro e doce, o que a tornava simpática no ambiente de trabalho, isto pese à sua função de auditora, o que por  vezes costuma exarcebar o orgulho e a prepotência de muitos. Não era o caso de Norma que trabalhava na mesma empresa que Alexandrino, cuja atividade era voltada ao atendimento de clientes inadimplentes. Coincidentemente, também ela estudava à noite na mesma Faculdade que o nosso biografado. Entretanto, até aquele dia, o contato entre eles havia sido  muito pequeno e absolutamente restrito ao ambiente de trabalho. Pois bem, ele ainda se recorda da manhã fria em ela se aproximou e, disfarçadamente, com um sorriso que a determinação do olhar contradizia, disse-lhe que, na noite anterior, buscavam por um “brasileño” na Faculdade. “Cuidate compañero”, nada mais falou e afastou-se com o mesmo sorrir com que se aproximara.

Se a repressão procurava precisamente por ele na Faculdade, Alexandrino nunca pagou para ver, mas pelo que ele se recorda, não havia mais nenhum brasileiro estudando lá nos idos de julho de 1976. Simultaneamente, com esse alerta, soava o da necessidade de deixar imediatamente o emprego, dado que as alternativas de permanência na Argentina estavam absolutamente esgotadas e cada dia adicional por lá vivido, simbolizava uma espécie de roleta russa a girar e aguardar o disparo. Alexandrino e sua companheira deveriam empreender uma retirada e esta tinha que ser urgente.

Acontece que sem passaportes, com as embaixadas sob vigilância militar, documentação argentina falsificada e pouquíssimo dinheiro disponível, a alternativa menos ruim seria a volta ao Brasil, onde pelo menos estariam em seu ambiente e as famílias poderiam ajudá-los na clandestinidade ou mesmo, numa vida semi-clandestina. Mas como voltar sem correr o risco de nova prisão? Diversos companheiros haviam tentado o retorno a partir da Argentina e quase todos haviam sido atraídos para emboscadas, torturados e assassinados.

Portanto, nossos amigos decidiram que qualquer retorno à Pátria não deveria, em hipótese alguma, basear-se em conhecidos ou esquemas vinculados à esquerda militante, mesmo porque qualquer um desses possuía grande chances de haver sido detectado pela repressão. Tal qual fora descortinado com Torres ( vide episódio n.2) há menos de um mês, a alternativa que parecia ser mais segura para entrar no Brasil passava pelo caminho do contrabando. Entretanto, havia mais um complicador: nossos amigos tinham um filho de um ano de idade. Ele suportaria aquele tipo de êxodo? Precisavam de qualquer modo protegê-lo, inclusive se fossem presos, mas como?

A ala mais radical da geração de 68 sempre questionara a família burguesa e, mesmo, chegara a negar-lhe importância num processo de emancipação social. No entanto, quando nossos jovens subversivos já não podiam contar com seus companheiros por estarem mortos, presos ou tão perseguidos quanto eles, a dialética da negação da negação se lhes impunha como realidade e não apenas como raciocínio metafísico, e, para finalizar essa digressão filosófica, a síntese apontava para o socorro familiar. Pois foi a sombra protetora da familia que tanto protegeu nossos jovens, aqueles arautos de um tempo libertário! Foi a elas que nossos amigos também apelaram e delas receberam uma prova inequívoca de solidariedade não contemplativa, de amor que age.

A sogra de Alexandrino, ainda moça e com a força de seus cincoenta anos, predispôs-se a seguir a trilha perigosa do contrabando. Para todos os efeitos, seria uma avó que viajava sozinha com um bebê, portador de documentação argentina e autorização paterna reconhecida em cartório. Quando Alexandrino hoje olha para o passado, percebe a precariedade das condições daquele retorno que mais beirava o desatino do que um plano. Mas, enfim, nos primeiros dias de julho os quatro peregrinos iniciaram a sua “fuga para o Egito”, tentado eludir o “martírio dos inocentes”. Eles muito arriscaram e foram felizes no seu intento.

A primeira etapa foi realizada numa longa viagem de ônibus, pois os aeroportos eram extremamente vigiados e grande a chance de “queda”. De Buenos Aires seguiram até Iguazu, pequena cidade fronteiriça do departamento de Missiones com o Brasil.

Devemos aqui salientar que o policiamento entre os Estados, onde imperavam  ditaduras militares, não era dos mais apurados. Afinal, quem buscaria abrigo num Brasil da tortura e dos crimes, quando a canalha de Fleurys e Perdigões haviam sido os exportadores do extermínio dos opositores, mestres dos  militares assassinos argentinos, uruguaios e chilenos?

Enfim, nenhuma documentação foi pedida na chegada do grupo a Iguazu. A busca pelos “barqueiros” nas bandas do rio não demandou grande esforço. Por uma pequena quantia em dólares, aqueles pobres contrabandistas de cigarro e uísque (pois o narcotráfico ainda não se estabelecera naquelas paragens), que utilizavam seus barcos  movidos a remos e músculos para cruzar o rio Paraná, conduziam para o lado brasileiro quem o quisesse, sem perguntas. E assim foi feito no mesmo dia da chegada. Alexandrino, Beatriz, com suas malas e a avó com o pequeno José Pedro, numa noite sem luar, fizeram a travessia do rio caudaloso.

Do lado brasileiro aguardava-os uma surpresa. O barco aportava em uma ribanceira e a subida íngreme requeria músculos, equilíbrio e até mesmo sorte. A iluminação era a de duas únicas lanternas, nada mais. Para os moços do contrabando, filhos fortalecidos pela natureza dura dos campos, carregar nos ombros seus sacos pesando vinte, trinta quilos, não parecia requerer nenhum esforço especial. Já Alexandrino recorda-se ainda hoje dos quarenta e dois degraus, pois eram quarenta e dois pedaços de madeira escorregadia, fincados na terra íngreme, que precisava vencer com o pequeno filho nos braços. Qualquer escorregão poderia significar uma desgraça, pois para trás ficava o negro leito das águas profundas. E, importante, esquecíamos de dizer que o nosso biografado possuía acrofobia, o medo pelas alturas e tal qual Orfeu deveria sair do inferno sem olhar para trás.

Enfim, lograram atravessar a fronteira natural e chegaram a terras brasileiras. Ao lado do “cais” havia uma kombi que, por módica quantia, agora em cruzeiros, e também sem perguntas, conduzia seus passageiros até a cidade de Foz do Iguaçú. E, de lá, a caminho de São Paulo prosseguiram nossos peregrinos para uma “nova” vida em sua própria terra. Sentiam ainda muito medo, mas o alívio de escaparem à morte certa nos centros de extermínio argentinos já os alentava. Ao chegarem à rodoviária de São Paulo, pegaram um ônibus para um “refúgio familiar” provisório no apartamento de uma tia em São Vicente.

Alexandrino recorda-se da baixada santista, onde aquele fim de julho mais se assemelhava à primavera, com o sol a brilhar no céu claro. Ao andar pela praia, observava a sua sombra que caminhava sempre adiante dele mesmo, uma sombra companheira que jamais o abandonaria em toda a sua vida, pois ela sendo sombra é também filha da luz e do caos e somente quem viveu no claro e no escuro, na revolta e na reconciliação, no combate e na paz, pode sentir ter vivido  intensamente o tempo que lhe foi concedido para viver!

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