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Mês:

setembro, 2012

“Sobrevivendo nas Sombras”

Um opioide, um tiroteio e o cheiro da morte

Os fatos a que nos referiremos ocorreram precisamente entre os dias 23 a 26 de dezembro de 1975. Nosso biografado e sua família (não nos esqueçamos de que uma criança de sete meses já lhes fazia companhia), mudara-se, em decorrência dos episódios já relatados, da cidade de Buenos Aires para uma região próxima, ainda na região metropolitana, a menos de dois quilômetros de Avellaneda, onde localizava-se  Monte Chingolo com o quartel “ Arsenales 106, del Ejercito Argentino”.

Viveram algum tempo em uma pequena casinha, quarto, cozinha, banheiro, em cujos fundos havia um quintal com flores e algumas árvores frutíferas. Um lugar mais do que simples, porém muito agradável. Mas na vida daquelas pessoas que viviam nas sombras, sempre haveria um senão. E esse era o fato de que a região sofria com permanente falta de água. E por esse motivo, a casa possuia um depósito subterrâneo para a mesma, localizado exatamente no jardim.

Agora sim, podemos contar nossa história. A dor no dente molar inferior que Pedro Alexandrino sentia já o importunava há algum tempo. O dentista do bairro que o atendera, fizera o serviço a seu modo e a dor, no entanto, persistira. No dia 23 de dezembro, à tarde, ela tornara-se insuportável e as aspirinas pouco ajudaram. O nosso amigo ganhara uma pulpite num dente fechado e obturado. Somente quem já passou por uma dor como essa sabe do que falamos.

Para “colmo”, como dizem os argentinos, “la Navidad” caia num final de semana e o tal do dentista viajara. Praticamente sem dinheiro, a alternativa que restava era ir à farmácia e comprar algum analgésico que funcionasse e aguardar até a segunda-feira ( ou terça, ele hoje não se recorda precisamente), que sucederia ao dia de Natal. Comprou, então, dolantina injetável, pois sabia que funcionaria, afinal já aplicara a mesma em casos de dores agudas na Casa de Detenção em São Paulo, mas esta é uma outra história. A dolantina provoca, à parte da analgesia quase imediata, sonolência e uma sensação de profundo bem-estar.

Foi logo após a primeira aplicação venosa, quando a sensação de dor quase magicamente desaparecera é que se ouviram os primeiros disparos da metralha, seguida por voos rasantes de pequenos aviões, apitos, alarmes. Alexandrino olhou para sua companheira e disse-lhe sorrindo: “aqui se comemora cedo a véspera de Natal”. Ela, que estava em seu juízo perfeito, disse-lhe: “isso é tiroteio, você está dopado, precisamos saber o que está acontecendo”!

O ruído da metralha não cessava nem com a chegada da noite. Rajadas luminosas passavam a rasgar os céus. As rádios davam a notícia do “ataque terrorista” a uma unidade do Exército, onde se concentrava parcela importante de seus arsenais. Também dizia que a perseguição aos guerrilheiros se estendia num círculo de mais de dois quilômetros de raio, ou seja, englobava a localidade da pequena residência do casal. Havia anúncios radiofônicos para que ninguém desse abrigo a “terroristas” que tentavam fugir ao cerco, que a população permanecesse em suas casas e facilitasse o trabalho de buscas da polícia e do exército.

Com dolantina e tudo o mais, o momento fez com que a sedação desaparecesse. Nossos amigos precisavam ter uma alternativa e Alexandrino pensou rápido: “vamos secar o reservatório de água”. Retirada a tampa, viram que, por sorte, não havia tanta água depositada e alguns baldes resolveram a situação. O depósito seco era grande o suficiente para abrigar até mesmo duas pessoas, por algum tempo.

Nossos amigos sabiam da possibilidade de terem a casa “allenada”, revistada, e, nesse caso, os documentos argentinos falsos que possuiam não resistiriam. “E se algum companheiro pedisse guarida em sua casa?”, eu perguntei ao Alexandrino. Ele me disse: “o que fazer, iria pro depósito de água também ou morreríamos todos”.

Pelas dúvidas, após improvisar o esconderijo, fecharam as portas da casa, sem esquecer dos enfeites natalinos que foram pendurados e puseram um cartelito no portãozinho de entrada: “Volvemos en lunes: Buena Navidad”. Pequeno pedaço de papel salvador.

Numa situação como essa o tempo é muito relativo e assim temos que considerar o depoimento de nosso entrevistado. De qualquer modo, pouco tempo após a afixação do cartalito, um tiroteio se fez ouvir a não mais que cem metros. Sirenes chegando, gritos “a ese hijo de puta lo matamos”. A criança, José Pedro, desperta e começa a chorar. É a hora de ir para o depósito de água. Alexandrino não tem dúvida em acalmar o filho e lhe injeta quase meia ampola de dolantina. Então, os três se acomodam e recobrem o esconderijo improvisado com sua pedra. Ouvem ruídos, não se mexem, nem mesmo piscam os olhos. Soa a campanhia da casa, a repressão busca outros fugitivos. Mas não entra, o pequeno cartelito fora providencial e salvador.

Quando tudo se aquietou deixaram o esconderijo. Já não havia avionetas pelos céus, balas tracejantes, nem metralha e nem sirenes. Pois justamente agora a dor voltava e nosso personagem fez com que sua companheira lhe aplicasse outra dolantina na veia. Ele quase podia ouvir um “resquiat in pace”.

Muito bem, o dia 24 e 25 passaram. Dia 26, Alexandrino, como muitas vezes fazia, tomou o ônibus para ir trabalhar em Buenos Aires. Ele passava por Avellaneda e no seu percurso estava o cemitério da cidade. Um cheiro ocre, adocidado-apodrecido, um cheiro de morte invadiu todo o transporte. Mais de quarenta cadáveres, com as mãos cortadas estavam atiradas ao solo do cemitério, sem sepultamento, visíveis ao longe pela janela do veículo. O trânsito é lento e alguém comenta: “ahora quieren matar a nosotros con ese holor”.

Obs.: O ataque ao quartel de Monte Chingolo seria a maior ação revolucionária urbana do Exército Revolucionário Popular argentino, que mobilizara toda sua infra-estrutura para abastecer com armamento a guerrilha rural. Um agente infiltrado, desses malditos cães que mudam de lado, denunciou a ação ao Exército e os mais de cem guerrilheiros que dele participaram cairam em uma armadilha mortal. Quem não morreu em combate foi covardemente torturado e assassinado após a prisão. Os corpos em decomposição foram mantidos sem sepultura, com as mãos amputadas, com o objetivo de disseminar o terror, por quase uma semana no Cemitério de Avellaneda.

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“Sobrevivendo nas Sombras” 

O esgoto entupido e a solidariedade inesperada

 
É muito difícil a vida daqueles que conscientemente optaram por viver nas sombras, em todos os tempos negros da nossa história. Eram pessoas para quem o lugar da liberdade era qualquer parte do mundo, já  que o do amor à liberdade era o coração de cada um deles; um lugar sombrio, muitas vezes, mas de resistência a um ambiente perigoso.
Muito bem, uma das maiores dificuldade que eles enfrentavam era a imprevisibilidade do momento seguinte, ou seja, a impossibilidade quase absoluta de conhecer os fatores que estavam em jogo e que poderiam levá-los à tortura, à prisão e mesmo à destruição física ou psicológica.
Quando nos relatou o episódio que passamos a transcrever, um certo sorriso maroto aflorou aos lábios de Pedro Alexandrino. E ele nos disse: “Talvez alguém já tenha falado isso antes, mas saiba que a sabedoria é uma virtude da velhice, que parece vir apenas para aqueles que, quando jovens, não eram nem sábios e nem prudentes, mas amavam seus companheiros de luta e a humanidade de um modo geral”.
O cenário é a Argentina e o momento é o princípio do ano de 1975, portanto, às vésperas do golpe militar. Alexandrino e Beatriz viviam em um pequeno apartamento alugado, em meados de 1974, para servir à resistência brasileira. Naquela época eles chamavam esse tipo de moradia de “aparelhos”. Como, após a queda de Allende no Chile e do golpe cívico-militar uruguaio, a imensa maioria dos exilados partira para a Europa, esse local logístico era dos únicos a existirem no “Cone Sul”. Citamos esses fatores apenas para explicar o fato de nesse “aparelho” acumularem-se grande quantidade de documentos de organizações de esquerda, assim como material para falsificação de identidade para pessoas perseguidas, documentos pessoais de militantes que eles nem conheciam, microfilmes, etc., etc..
Na data em que se desenvolve o presente episódio, nosso jovem casal tinha consciência de que precisava dar um fim a boa parte daquele material, primeiro porque a própria resistência armada no Brasil havia sido exterminada, tornando inútil boa parte do mesmo e, em segundo lugar, não poderiam correr o risco de serem presos com ele. Foi aí que, por um acaso e por um ato de enorme solidariedade humana, a casa não “caiu”. Mas vamos aos fatos após tanta preparação.
Alexandrino fora para o trabalho onde permanecia até por volta das oito horas da noite. Sua companheira encontrara-se com um dos poucos exilados ainda por aquelas bandas, que lhe deu uma “excelente ideia” de como fazer para destruir parte do material sem chamar a atenção, o que ocorreria se lhe pusesse fogo, que produziria uma tremenda fumaça. Ele garantia que já havia realizado e funcionava. Bastava recortar os microfilmes, os documentos e colocá-los num balde com um líquido à base de cloro, comprado em casa de material de construção. Isso feito, deixá-los descançar por algumas horas e jogar tudo no sanitário, dando muita descarga. E assim, nossa ingênua Beatriz procedeu.
O vaso sanitário do apartamento, que localizava-se no sétimo andar, tinha comunicação com o do vizinho ao lado e da junção de ambos saia um cano que, juntando-se ao do andar superior, desembocava na coluna central do prédio. Acontece que o material, uma vez colocado no vaso de nosso incauto casal, entupira-o e caminhara para o banheiro do lado vizinho, entupindo-o também por sua vez. A companheira de Alexandrino, durante a tarde, já no desespero, comprara soda cáustica e tocara vaso abaixo. Quando ele chegou, a situação já ficara crítica. A água, onde pedaços de microfilmes e de documentos sobrenadavam, invadira até o tapete da sala da pobre vizinha. Presente estava o zelador, um excelente senhor, que disse que teria de comunicar o fato ao síndico e chamar um encanador no dia seguinte, pois quem provocara o entupimento ou fora o apartamento ao lado ou um dos dois localizados no andar superior.
Assim que o zelador saiu, Alexandrino ficou a sós com a senhora Pilar, dona do imóvel. O caso já não permitia mentiras por ser evidente, dado que certos recortes estavam em português. Nosso herói olhou-a bem nos olhos e disse-lhe: “Usted sabe que el problema está en nuestro sanitario”e propôs pagar todos os “daños”provocados ; a senhora olhou-o também dentro dos olhos e disse-lhe muito séria que “por amor de Dios”, fizesse algo para desentupir aquele esgoto naquela noite, antes que alguém mais visse. Nada mais era necessário ser dito.
Pelas dúvidas, Beatriz, grávida, começou a preparar uma mala para a fuga no dia seguinte, sem mesmo saber para onde ir. Alexandrino retirou o vaso sanitário e começou, com a mão nua, a tentativa de desobistruí-lo. De repente um grito: “Que merda você colocou aqui? Está ardendo!”. Ela confessou-lhe, quase chorando. “Fiquei desesperada, e coloquei soda”. “Traga vinagre e cada vez que eu pedir, passa no meu braço e na minha mão”.
E, naquela noite travou-se uma luta feroz, desesperada, mas sem quartel, digna do comandante Acab na busca por Moby Dick. E a cada hora, o nível do esgoto baixava um pouquinho; de novo, outro tantinho, até que, de repente, ouviu-se o ruído mágico, maravilhoso, de tudo o que a coluna de esgoto, agora liberto, carregava.
Amanheceu e com o novo dia, Alexandrino não pôde sair para trabalhar. Tinha mão e braço queimados e enegrecidos pela soda cáustica. Deixou, então, um bilhete embaixo da porta da senhora Pilar perguntando-lhe sobre prejuízos. No dia seguinte, recebeu uma resposta também por bilhete, “no se preocupen, pues para mi, no pasó nada”.
De todos os modos, após aquele incidente, nossos amigos prepararam-se para mudar de endereço e o fizeram de um modo organizado, e isso aconteceu uns meses após. O último a retirar os pertences do apartamento foi Alexandrino e para isso pernoitou sozinho no apartamento quase vazio. Por volta das nove horas da noite, soa a campainha. Qualquer visita sempre causava um sobressalto em quem vivia nas sombras. Mas quem se anunciou era a senhora Pilar. Trazia-lhe um lanche, abraçou-o e disse-lhe: “Te voy a hacer una confidencia. Siempre supo sobre Uds, pues tengo un sobrino que está desaparecido. Por favor, compañeros, cuidense; tengan toda la suerte y que se vallan con Dios”.  

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“Sobrevivendo nas Sombras”

Um general patriota e um “gorila” com “cara de perro hambriento”

Passara-se quase um ano após o episódio do “compadre” da Policia Federal. A situação política argentina se definira. A democracia caíra apenas com um berro dado pelos comandantes militares de turno. Isabel de Peron foi por eles mesmos embarcada para Madri, para um exílio dourado, ao lado do assassino Lopes Rega. Os idos de março de 1976 foram  tempos negros que seriam para sempre tingidos com o sangue do povo argentino e de tantos mais latinoamericanos que se encontravam naquelas terras. As Forças Armadas argentinas haviam, afinal, instaurado “a banalização do terror”.

A grande maioria dos brasileiros que tinham deixado o Chile de Pinochet rumo à Argentina já haviam, por sorte,  partido para o exílio em outros países, principalmente para a Europa. Pedro Alexandrino, entretanto, ainda estava por lá e somente após os graves fatos que relataremos a seguir, tomou, com sua companheira, a decisão de preparar um esquema para a saída do país. No entanto, isto é motivo para um novo episódio que relataremos somente no futuro.

Foi após o golpe militar argentino que Alexandrino conheceu um personagem singular, superior, realmente um homem de coração puro e de índole inabalável. Conheceu-o como Jota Jota. Trazido por um companheiro em comum, Jota Jota já era um senhor, o que contrastava com a juventude da grande maioria dos militantes, em toda força física de seus cincoenta anos. De sua descendência indígena, herdara uma baixa estatura num corpo sólido e forte; sorriso franco e humilde de quem confraterniza com a vida e com os homens, mesmo nas mais difíceis situações. Este senhor era o General Juan José Torres, ex- presidente da Bolívia.

Para falarmos de Torres, precisamos visitar, mesmo que de passagem, os nossos conhecimentos sobre a Bolívia do princípio dos anos 70. Governava então nosso país vizinho o General  Ovando, sendo Torres o Comandante em Chefe das Forças Armadas. Ovando alinhava-se, então, a uma geração de generais patriotas e anti-imperialistas como o do Peru, Alvarado e do Panamá, Omar Torrijos.

Sob a coordenação da CIA e dos interesses das companhias de mineração e petróleo, Ovando, após muitos confrontos sangrentos, foi deposto do poder; no entanto, o General Torres encabeçou uma heroica resistência contra a direita do Exército, venceu-a e assumiu o governo boliviano. Torres, que possuía uma posição à esquerda do próprio General Ovando, em suas primeiras determinações convocou uma Assembleia Popular, com representantes dos mineiros, camponeses, militares, professores e estudantes, para legislar em favor do paupérrimo e explorado povo andino. Também consolidou a nacionalização da Golf Oil, iniciada por Ovando.

Bem, nosso objetivo não é falarmos da história boliviana, mas antes de voltarmos a Alexandrino, ainda é preciso que se frise que todo o governo popular de Torres sobreviveu apenas dez meses. A direita, tendo à frente o facista corrupto e fantoche do imperialismo americano, o coronel Hugo Banzer, derrubou o governo de Torres e inaugurou uma ditadura terrorista que sobreviveu por nove longos anos.

Torres, com sua família, exilou-se na Argentina, mas ao contrário de tantos outros , jamais encarou o exílio como ponto final de militância ou de repouso d’armas. Desde 1971 trabalhou na organização da resistência boliviana, formando o Exército de Libertação Nacional, que colocou sob o comando de seu lugar-tenente Major Rubens Sanches, que operou  nas selvas da Bolívia até a sua morte. Quando Jota Jota travou contato com Alexandrino, o incansável lutador trabalhava também na articulação de uma Junta Coordenadora Revolucionária, que deveria abrigar militantes desde o Uruguai até a Bolívia.

Mas as perspectivas desta Junta eram desesperadoras. A última reunião que tiveram Alexandrino e Jota Jota ocorreu no último dia do mês de maio. Pensavam, então, em retornar na clandestinidade a seus países: Alexandrino para o Brasil e o general, para a Bolívia. Havia uma alternativa de eludirem-se os bloqueios fronteiriços, seguindo a rota do contrabando. Enfim, agendaram novo encontro para o dia 3 de junho.

Alexandrino recorda-se como se hoje ainda fosse aquela manhã fria, quando, antes de ir para o trabalho, deveria tomar o café da manhã com Jota Jota. Próximo ao café, localizado na avenida Entre-Rios, comprou como todas as manhãs um “La Prensa”. Uma foto do general-ditador argentino encimava a primeira página. Abaixo, a foto de Juan José Torres, sequestrado, torturado e morto a tiros, no dia anterior. O assassinato do resistente era um favor prestado entre crápulas: do general argentino Videla para o coronel boliviano Banzer, no que viria a ser conhecida como uma ação da Operação Condor.

O café estava a dois passos. Alexandrino tinha absoluta certeza de que nada aconteceria se ele entrasse e  tomasse seu café, engolindo o sabor amargo que o cálice do destino tantas vezes já lhe trouxera, a perda de mais um amigo, de mais um companheiro. Lembrou-se de do princípio de um verso de Neruda: “Perdemos um de nós neste mundo. Onde estavas?”.

Triste, com lágrimas nos olhos que insistiam em se despregar, caminhou até a parada de ônibus mais próxima. Atrás de si estavam dois operários e um deles possuia um “La Prensa” na primeira página e comentava com o amigo: “Mira, chê, no tiene este tal de Videla una cara de perro hambriento? ”. Seria um sorriso ou um rito facial que percorreu o rosto triste de Alexandrino? Nunca o saberemos, mas ainda hoje ele diz que naquele momento soube que a ditadura argentina jamais duraria tanto quanto a brasileira.

Nota do biógrafo: Em 1983, o corpo de Jota Jota foi transportado para a Bolívia e enterrado com honras de Chefe de Estado.

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Uma elucidação necessária

As memórias que serão publicadas neste Espaço Literário a partir de hoje e, desde então, semanalmente, não constituem de modo algum reminiscências vividas pelo escritor, mas sim, memórias de um jovem extraordinário a quem me dediquei a escrever a biografia. Como veremos, os episódios reportados referem-se, quase na sua totalidade aos anos 60, 70 e 80 do século passado, uma época em o sol punha-se tão cedo nesses trópicos e a noite sem luar era tão impenetrável que até mesmo era quase impossível, apesar de absolutamente necessário, “falar-se de amor e flores”. Tempo aquele de sombras e crenças fortes, ideias definitivas, doação integral, violências, um tempo sem paz, aliás nisso diferindo muito pouco de toda a história dessa velha humanidade.

Mas, que foram tempos dos mais intensos e apaixonados, que exigiam dos que se incorformavam o arrebatamento total, ah, lá isso o foram; onde a pureza e a ingenuidade seguiam às vezes pela mesma senda da imprevidência, principalmente quando o engajamente ocorria na mais tenra juventude, ah, se foram…

Nosso jovem, cujo nome de batismo é Pedro Alexandrino, apesar que às vezes eu esbarre na tentação de denominá-lo meu herói, nada possuia de realmente extraordinário. Ele não era em nada grande, apenas um jovem revoltado, no tempo que lhe foi dado para viver, agir e sonhar. Algum leitor poderá perguntar-me por que, dentre tantos jovens que resistiram ao arbítrio, que também foram submetidos à tortura, à prisão e ao exílio, e se comportaram ainda com maior dose de dedicação, autruísmo que meu personagem, eu tenha escolhido justamente Pedro Alexandrino para relatar episódios de sua vida. Esta pergunta é bastante embaraçosa e tudo o que eu posso responder, por enquanto, é que o leitor descubra o porquê por si mesmo, no decorrer de meu narrar.

É verdade que Alexandrino age muitas vezes de uma maneira estranha, obstinada, sem um objetivo muito claro. Mas não seria demais exigir muita coerência daqueles que queriam construir um novo mundo recém saídos da adolescência e em meio a uma luta de vida ou morte, onde a maldade e o peso de facínoras disfarçados em militares e policiais esperavam apenas o momento propício para os exterminarem? Que tempos foram aqueles em que viveu meu herói! Sou, no entanto, obrigado a concordar que Alexandrino, vistos com os olhos de hoje em dia, deva parecer mais que estranho, original quem sabe, um tipo de pessoa saído de almanaque, desprovido até mesmo de carne e osso, pois para ele o consumismo, o dinheiro, a posição social, o patrimônio pessoal, possuiam muito pouco valor! Aliás, o bem estar de um lar, a tranquilidade, a harmonia e o repouso de estar entre familiares e amigos, tudo isso pouco contava para ele. Afinal, acreditava-se um soldado do bem, como um antigo cruzado, em guerra de vida ou morte contra as forças do mal. E, de certa forma, apesar de maniqueísta, não constituia esta uma inverdade absoluta. E por isso mesmo Pedro Alexandrino, como seus companheiros, eram originais, seres diferentes do comum dos jovens, tanto daqueles de ontem como os da grande maioria de hoje em dia.

De todo modo, a necessária elucidação a que me propus está feita. Mas resta ainda um lembrete para o leitor. Isto não é um livro e tão pouco ele pagou por tal, o que me deixa, como escritor e biógrafo, absolutamente livre na organização da temática. Por inserir-se num Espaço Literário os episódios que serão relatados não possuirão ordenação cronológica, pois dela me desobrigo desde já e a comunico ao atento leitor. Diversos momentos na vida de Pedro Alexandrino serão contados e postados semanalmente neste blog e a única ligação que unirá cada episódio serão os períodos nos quais eles ocorreram.

Teremos, então, os eventos do período que denominaremos de “Militância Indômita”, que percorrerão os anos de 65 a 69; “Entre- Grades”, o período de 70 a 74 e, finalmente, “Sobrevivendo de Sombras”, que serão os anos 75 a 80. O primeiro episódio a ser narrado, como se de propósito fosse, ocorrerá no último período da biografia do nosso homem.

 

 “Sobrevivendo de Sombras”

Episódio 1. O compadre da Polícia Federal

Lá pelos meados de 1975, acontece com Pedro Alexandrino o fenômeno de tornar-se pai. Cabe a mim, como seu biógrafo, realizar um breve relato dos fatos que antecederam evento tão natural e ao mesmo tempo tão inusitado, bem como realizar uma breve descrição das circunstâncias em que o episódio se passou.

Nosso herói, após longo período nas prisões brasileiras, havia se exilado na Argentina e lá conhecera uma outra subversiva, de nome Beatriz, tão solitária e carente como ele próprio. Dessa relação, resultou uma gravidez inesperada e o bebê que abriu alas neste mundo nasceu forte e saudável, decidido a sobreviver.

A Argentina vivia seus últimos dias de democracia. Uma democracia decadente, corroída pela corrupção, pela brutalidade dos asseclas que rodeavam a presidenta-viúva de Peron, assolada pelos militares famintos de sangue, por alas da igreja reacionária a pregar um golpe militar, latifundiários e anti-democratas em geral, prontos a eliminar a ferro e fogo as organizações populares e de luta. Ora, na vanguarda da repressão, sobressaia-se justamente a Polícia Federal e “las tripes A”, uma organização para-militar que apreendera a agir com os Esquadrões da Morte tupiniquins. Mas basta por aqui, pois não queremos  recontar uma história por nós conhecida, pois o que desejamos fazer é relatar um episódio que ocorreu com nosso personagem, que levava no país vizinho, uma vida de semi-clandestinidade.

Beatriz foi internada em um hospital que já não mais existe, o Sanatório G., na tão extensa “calle Cordoba”. Ela repartia o quarto com uma moça argentina, um pouco mais velha, de nome Mercedez, que também estava para dar à luz. Por coincidência da redes tecidas pelas Parcas, os bebês nascem um logo após o outro. O de Alexandrino é um varão forte, de olhos verdes, e o de Gimenez, pois assim se chamava o marido de Mercedez, uma menina, para sermos justos, mirradinha e não muito bonita.

Inevitavelmente estabeceu-se uma relação de cordialidade e para dizer a verdade, o casal de argentinos era muito simpático e por demais falante. E também muito curiosos, o que conduzia  nossos amigos exilados a permanecerem com o sinal de alerta permanentemente ligado. Afinal, naqueles tempos negros, a semi-clandestinidade impunha a discrição e a dissimulação como regras básicas de sobrevivência.

Pois bem, chegamos ao terceiro dia após o parto e Gimenez convida nosso amigo para juntos irem até o Cartório registrarem as crianças e lá se vão os dois a conversar sobre o tempo, o futuro dos bebês, e outras mais conversas de se jogar fora. Descobrem, inclusive, serem praticamente vizinhos, moradores do bairro de Caseros e Gimenez já, então, chama nosso amigo de compadre e quem sabe no futuro até “sus hijos poderian compor un matrimonio”.

Em frente aos escrivãos, sentam-se lado a lado. Após as descrições de praxe, vem a qualificação dos pais. Quem primeiro fala é Pedro Alexandrino que se declara representante comercial ( ele que nada representava exceto a sua vontade revolucionária); em seguida Guimenez: Polícia Federal, investigador! Nosso amigo sentiu um arrepio percorrer-lhe toda a coluna cervical; afinal, dera no hospital e consequentemente no cartório seu nome e endereço real. O sinal de perigo era enorme…

Nome das crianças pedem-lhes os escrivãos. Pedro sede a vez ao “compadre”. Ele diz: Maria del Rosário, “en homenage a  la sancta”. Pedro e Beatriz haviam planejado dar ao garoto o nome de Ernesto Fidel. Mas imediatamente ele mudou de ideia e disse: “José Pedro”, e virando-se para o argentino lhe confessa: “José como el Padre del Niño y Pedro para el hombre de las llaves que nos abriran las puertas de los cielos, a nosotros, los buenos”.

E assim, foi graças ao “compadre”, que aquele que deveria chamar-se Ernesto Fidel, por toda a vida ostentará o nome bíblico de José Pedro.

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