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ensaio

Por volta de 1930 a literatura moderna entrou em crise. O abalo do Academicismo produzido pela Semana de 22 (vide A Semana de Arte Moderna de 1922 e o Espírito Moderno, em http://proust.net.br/blog/?p=756 ), ainda não produzira o necessário encontro entre a literatura e a realidade brasileira. As modernas técnicas estrangeiras assimiladas com o Modernismo, como o futurismo e o surrealismo, por exemplo, deviam se modificar, adaptar.

Nessa busca, em março de 1924, Oswald de Andrade publica o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”. Formava-se o “grupo dos cinco”, com Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Menotti del Picchia. O primitivismo, a “simplicidade alcançada” e a crítica ao nacionalismo postiço eram as bases de seu programa.

Mário de Andrade logo afasta-se do grupo e traçará caminho próprio. Del Picchia também buscará uma alternativa, mas à direita do grupo original.

O grupo “Pau-Brasil” evoluirá inclinando-se ideologicamente para a esquerda e, em 1928 fundará o “Movimento Antropofágico”. Este propunha a “devoração” cultural das técnicas importadas para reelaborá-las com autonomia, convertendo-as em produto de exportação.

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O Espaço Literário trouxe para seus leitores, há algum tempo atrás, uma das entrevistas realizadas por André Jammes, à época colaborador da “Le Nouvelle Revue Française”, com o escritor Marcel Proust, realizadas entre a primavera de 1914 e até pouco antes do falecimento do escritor, em 1922.

A primeira entrevista do autor de “Em Busca do Tempo Perdido” foi publicada em : http://proust.net.br/blog/?p=94.

No presente bloco, Proust é instado a falar sobre as fases da vida. Interessava ao repórter da N.R.F. tanto a visão do autor, quanto de seu personagem “Marcel”, a respeito da infância e da adolescência, da maturidade e da velhice, assim como da morte.

Infância e Adolescência

  • Sr. Proust, em seu romance, o narrador na maturidade da vida, tem a memória involuntária despertada pelo biscoito molhado no chá de tília, que lhe é servido na biblioteca do palácio de Guermantes; a partir desse instante estabelecem-se as conexões entre o Marcel e seu passado. Conversemos sobre a Infância?

A memória afetiva do narrador o transporta à antiga casa cinza de sua tia Leonie, com seus quartos e sala, o lindo jardim com todas as suas flores de verão, portões por onde se ia até a praça do vilarejo e daí, a dois caminhos: aquele que conduzia a Tansoville onde estão as flores dos jardins de Swann e o outro para os lados de Guermantes, onde o rio Vivone no seu eterno correr, caminha abrigando, tal qual nos quadros de Monet, suas lindas ninfeias. Todo um passado despertado pela a memória involuntária vai então adquirindo, ao nível consciente, consistência e corpo.

Veja que todos os homens, André, queiramos ou não, vivemos no presente de um passado, possuímos cada um, tal qual o Narrador, nossa Combray ao fundo da memória, a própria infância com tantos e tantos sentimentos sepultados sob cinzas, sobre as quais ainda pode soprar um ar reedificador vindo involuntariamente, um cheiro, um ruído, uma imagem nos trazem emoções vividas.

Marcel amou com toda a ternura o mundo mágico de seus primeiros anos. Tanto que conservou por muito tempo, talvez por sentir-se fraco e asmático, a esperança de jamais abandonar aquele tão protegido recanto familiar. E o passado estando presente no adulto, levá-lo-á a relembrar o alívio sentido pelo beijo da mãe em Combray, o mesmo beijo que ele encontraria em Albertine, no amor num tempo futuro.

Assim são também as inquietações experimentadas na infância, que ao apelo de uma nova angústia, retornavam para sufocá-lo. Como outrora, quando sua mãe o deixava sem tê-lo acalmado com um beijo, Marcel iria desejar correr atrás de sua amante no futuro, pois sentia que não haveria mais paz antes de tornar a vê-la.

Quando, Marcel, somente após rompida a magia da infância por força da natureza foi obrigado a conviver e lutar com os homens; acredito, então, poder apaziguá-los à força da doçura, da cordialidade, prestando-lhes favores, tentando reproduzir a infância vivida pois, como disse Molière, cada um apanha o seu ouro onde ele está.

Com o correr do tempo e da vida, entretanto, após conhecer o que é o viver e o poder demolidor das paixões, Marcel foi vendo derreter-se sua doçura, tornando-se mais duro, possessivo e, muitas vezes, cruel.

  • Diversos elementos contribuirão decisivamente para o desenvolvimento cultural de Marcel, assim como servirão de estímulo para que se volte, quando adulto, para as questões do espírito e possa realizar uma obra de arte, correto?

Sim, o ambiente era muito propício. Tanto a avó materna quanto a mãe do Narrador eram pessoas cultas e leitoras infatigáveis dos clássicos. Adornavam e enriqueciam suas conversações com citações de Racine, Montaigne e da senhora de Sévigné. O narrador era sempre presenteado, o que constituía uma forma de demonstração de amor e carinho, mas estes regalos jamais eram comuns, sempre eram alguma coisa da qual se tirasse um proveito intelectual, ensinando-o a buscar o prazer em outro ponto que não nas satisfações do bem-estar e da vaidade.

  • O ambiente familiar de criança sensível aliava deste modo uma alta sofisticação intelectual a um afeto protetor. Conversemos um pouco sobre a Adolescência, quer seja a relembrada pelo senhor ou imaginada pelo Narrador, de acordo?

                A característica dessa idade, que Marcel julgava ridícula, na verdade ela em nada é ingrata e sim, muito fecunda, quando os mínimos atributos humanos parecem que passam a fazer parte indivisível da personalidade. A tranquilidade nessa época é coisa desconhecida, pois estamos sempre cercados por deuses e monstros. E quase todos os gestos que então fazemos, desejaríamos tê-los suprimido depois. Quando, ao contrário, o que se deveria lamentar era não mais termos aquela espontaneidade que o Tempo nos inspirava. Mais tarde, veem-se as coisas de modo mais prático, mais de acordo com o resto da sociedade, mas a adolescência é a única época em que se aprende para sempre.

E é tão curta essa radiosa manhã, em que também o sexo é descoberto, que a gente acaba por não gostar senão dos meninos ou meninas muito jovens, aqueles cujas carnes se acham ainda em elaboração. Parece que cada um é sucessivamente a estatueta de alegria, da seriedade juvenil, da graça, do espanto, modelada por uma expressão franca, inteira, mas fugaz. Verdade é que esses atributos serão também indispensáveis no homem e na mulher feita, mas a partir de certa idade, não despertam mais as suaves flutuações numa face que as lutas pela existência enrijeceram e tornaram para sempre militante ou estática.

Pois bem, nessa fase gloriosa da vida, Marcel sentia a sensualidade se espalhando por todos os recantos de sua imaginação, o que fazia com que seu desejo não tivesse limites. A verdade é que durante muito tempo ainda permaneceria nesta idade em que não abstraímos o gozo da posse de diferentes seres que a vida se nos oferta. Nós mal pensamos no gozo como um prazer a obter, mesmo porque não pensamos em nós e sim em sair de nós.

Quanto a mim, Marcel Proust, posso lhe assegurar que jamais superei a urgência por estar rodeado de ternura e gentilezas, viver em um mundo menos áspero, menos competitivo, menos hipócrita e mais moral.  Saiba, caro André, dentre as qualidades que mais admiro nos homens estão a delicadeza intelectual, a vontade de servir e a cordialidade, virtudes que se creem femininas. E nas mulheres, a determinação, a gana de lutar pelo que creem, que se dediquem à amizade com os homens, virtudes tidas como masculinas.

Maturidade e velhice

  • La Rochefoucauld dizia que nem o sol e nem a morte podem ser vistos de frente. Tão grande é a dificuldade do ser humano em aceitar a vida e a morte, quanto o fato de que a maturidade constitui já o topo de uma escada, após a qual principia a decadência até o final do ser mortal. Esses são temas de extrema importância em sua busca de um tempo reencontrado.

Falemos primeiro do tal topo da escada. Ao atingirmos a maturidade é quando o Tempo desenvolve todo o seu poder de conduzir nossos corpos e nossos espíritos à decadência; acontece que demoramos a nos apercebermos disso e essa é a razão pela qual aceitamos a decadência sem mesmo a notarmos, pois ela se instala sorrateira e lentamente. Quando, finalmente, ela é conscientemente aceita, tem como resultado tornar as pessoas menos exigentes no tocante àqueles com quem se resignam a conviver, menos exigentes quanto ao espírito como quanto ao resto. Tal negligência produz, entre outros resultados, o de agravar esta tendência, tão comum quando se atinge certa idade, a considerar agradáveis as palavras que lisonjeiam o nosso modo de pensar e as nossas inclinações e nos animem a segui-las; essa é a idade em que um grande artista prefere, ao convívio de espíritos originais, o de seus discípulos, que só têm em comum com ele a letra de sua doutrina, mas que o escutam e o incensam.

É na maturidade que começamos a compreender o que é a velhice, a velhice que de todas as realidades, é talvez aquela de que guardamos na vida uma noção meramente abstrata, observando os calendários, datando nossas cartas, vendo os amigos se casarem, os filhos de nosso amigos, sem compreender por medo ou por preguiça exatamente o que significa tudo isto.

Quando uma doença, um duelo ou um cavalo alucinado nos fazem ver a morte de perto, somos sacudidos por sentimentos como de que maneiras poderíamos haver gozado imensamente a vida, a volúpia e os países desconhecidos de que iríamos ser privados. E, uma vez que o perigo passa o que descobrimos é a mesma vida morna onde nada disso existia para nós. Sabe que será tarde quando aprendermos a amar o que nunca será visto duas vezes.

Marcel tinha em seu tio Adolphe o protótipo do homem solteirão, já com idade mais ou menos avançada, extremamente rico, que absolutamente não aceitava a sua velhice. Para isso fazia-se rodear de artistas e cocotes, de preferência as mais belas de Paris. Enquanto Marcel enxergava aquela vida como uma alternativa mundana recheada ao mesmo tempo de vacuidade e de felicidades momentâneas.

Enfim, os homens se tornam velhos quando no dia de Ano-Novo deixam de desejar Boas-Festas, não por falta de educação, mas porque não acreditam mais no Ano-Novo.

  • Sem alterarmos o rumo de nossa conversação, ocorreu-me agora uma observação de Anatole France em que ele se refere a Marcel Proust como “o autor, que sendo jovem, é velho da velhice do mundo”.

                Muito me envaidece esta observação de Anatole France. Acontece que já nos meus trinta anos já me acreditava ser um velho. Acontece que todo grande escritor só é ele mesmo quando deixa falar suas vozes interiores, que tão somente na solidão e no recolhimento se fazem ouvir. E isto requer tempo; quem me dera me fosse dada uma parcela maior desta velhice do mundo para escrever minha obra.

Enfim, essas minhas vozes interiores buscam ser as vozes do meu tempo e meu escrever é sobre a psicologia do tempo, não de um tempo infinito, mas o tempo do homem, aí sim, realmente, tão velho quanto ele próprio o é.

  • Falemos pouco mais sobre as “metamorfoses” da velhice. Aquele moço cheio de vida, que buscava frequentar em Paris os salões da duquesa de Guermantes, em Balbec o castelo alugado pelos Verdurins, que lutava para fazer-se convidado pela princesa de Guermantes, o que restará, afinal, de toda aquela agitação, de toda aquela energia?

Nós jamais somos os mesmos no dia que passa; Marcel, quando finalmente inicia o seu trabalho em busca do tempo a ser reencontrado, já recluso, única forma de se reencontrar na vida da criação artística, sente os efeitos da decadência do corpo. Ele constata que a partir de certo grau todo desregramento torna-se um fastio. Aliás, até mesmo o prazer momentâneo já se acabou, pois o corpo e o espírito estão muito desprovidos de forças para que possam acolher agradavelmente o que parece uma diversão ao leitor. O aniquilamento da maturidade, a destruição de uma pessoa cheia de força e agilidade já é um primeiro passo rumo ao nada.

A velhice nos torna primeiro incapazes de empreender, mas ainda mantemos o desejar. Só num terceiro período é que aqueles que vivem até uma idade muito avançada renunciam ao desejo, assim como já haviam tido de abandonar a ação. Ele se limitam-se a sair de casa acompanhados, a comer, a ler os jornais, a sobreviverem a si mesmos.

A morte

  • Conversar sobre a morte é sempre um assunto difícil, pois assinala a nossa finitude. Dentre os seres vivos, somente o homem conhece a morte, embora no fundo ninguém acredite em sua própria morte, ou no que dá no mesmo, em seu consciente ou em seu inconsciente, cada um está persuadido de que sua própria individualidade irá, de alguma forma, perpetuar-se.

Realmente, crer na própria morte como um evento mais do que possível, mais do que provável, absolutamente inapelável, apenas sem um tempo definido, constituiria o pior dos pesadelos para a maioria da humanidade. Veja o exemplo do soldado da linha de frente da batalha. Ele está convencido que tem diante de si um espaço de tempo infinitamente adiável antes que o matem; o ladrão, antes que o prendam; o homem, em geral, antes que o arrebate a morte. Este é o amuleto que preserva os indivíduos, às vezes os povos, não do perigo, mas do medo do perigo; na verdade, na crença do perigo, motivo pelo qual o desafiam em certos casos sem que sejam necessariamente bravos.

Sabemos que a hora da morte é incerta, mas, quando falamos isso, afiguramos essa hora como situada num espaço vago e longínquo, não imaginamos que ela tenha uma correlação qualquer com o dia começado, e possa significar que a morte, ou sua primeira posse parcial de nós, após a qual não nos larga mais, poderá ocorrer nessa mesma tarde, tão pouco incerta, essa tarde em que o emprego de todas as horas está previamente agendado. A gente se empenha para cumprir os nossos compromissos, o dia está inteiro para nós, gostaríamos que amanhã fizesse um bom tempo para visitarmos uma amiga e não desconfiamos que a morte que caminhava entre nós em outro plano escolheu precisamente aquele dia para entrar em cena e talvez entre em cena dentro de alguns minutos.

  • Para Goethe, a morte de um ser próximo é sempre incrível e paradoxal, uma impossibilidade que se transforma em realidade. Esta aparece como um castigo, um erro, uma irrealidade.

A morte de milhões de desconhecidos apenas nos causa um arrepio, aliás, menos desagradável do que o provocado por uma corrente de ar. Rapidamente as tragédias que não nos atingem são sucedidas por outras e jamais nos recordamos daquelas em que tantos morreram.

A morte próxima é a única real. De certa forma, os mortos continuam vivendo em nós, seus pais ou filhos. Marcel observa pela primeira vez que “aquele olhar fixo e sem lágrimas que tinha a minha mãe desde a morte de minha avó, estava detido naquela incrível contradição da lembrança e do nada. No entanto, logo que a vi entrar com seu manto de crepe, apercebi-me que não era mais a minha mãe que eu tinha diante de meus olhos, mas a minha avó”, como que se por um fenômeno de metempsicose ou do modo que nas famílias reais, o morto apodera-se do vivo que se torna o seu sucessor semelhante, o continuador da sua vida interrompida. Nesse sentido é que se pode dizer que a morte não é inútil, que o morto continua a atuar em nós.

No caso dos “desaparecidos” então, saber que nada mais se tem a esperar, não impede que continuemos a esperar. Vive-se à espreita, à escuta: mães cujo filho embarcou em perigosa expedição imaginam a cada instante, e quando, desde muito está adquirida a certeza de sua morte, que o filho vai chegar miraculosamente salvo e de boa saúde. E esta espera, segundo a força da lembrança ou a resistência dos órgãos, ou as ajuda a atravessar os anos ao fim dos quais suportarão que o filho não mais exista, a esquecer de pouco a pouco e sobreviver, ou então, mata-as.

Creia-me, André, que só a morte, ao romper todas as nossas ligações com a vida e as coisas, é única capaz de nos curar do desejo eterno e onipresente de imortalidade, portanto, oferecer-nos a total liberdade.

Nota da Redação: André Jammes é um personagem, que dialogará com Proust sobre as temáticas mais relevantes encontradas em “Em Busca do Tempo Perdido”. A presente entrevista é parcela do livro “Entendendo Proust”, de autoria de Carlos Russo Junior.

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Morte em Veneza” foi escrito em 1911 e publicado em 1912. Nele, Mann apresenta numa escrita complexa e profunda, um texto do qual transbordam conceitos filosóficos, e que cada parágrafo pode ter várias interpretações. Ao mesmo tempo, Mann é um autor prolixo, que esgrime como só ele a ironia do romantismo. Isto, sem dúvida contribui para certa dificuldade na tradução e na leitura. E o leitor atento deve levar em consideração que toda a grandeza da obra é impossível de ser apreendida em uma leitura única e que a mesma requer certa preparação.

Em contraponto ao texto complexo, o enredo é enxuto: um escritor renomado, numa crise de criatividade por volta dos cincoenta anos, partindo de Munich viaja até Veneza, onde se apaixona platonicamente por um jovem púbere, extremamente belo.  O escritor, mesmo sabedor do surto de cólera que infecta a cidade, deixa-se ficar atraído pela beleza e sem sequer ter trocado uma só palavra com o objeto de seu amor, morre.

Trata-se de uma Novela, no estrito sentido da concepção alemã do conceito do novo, daquilo que é inusitado. E nada mais inusitado que Veneza, uma cidade tida como a capital do carnaval europeu, das bodas elegantes, que justamente nela ocorra uma morte, anunciada já no título. A estrutura da novela é de um drama, composto em cinco atos, com direito a desenvolvimento, peripécia e desenlace trágico.

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“Memorial de Aires” foi publicada em 1908, poucos meses antes do falecimento de Machado de Assis. O então viúvo era um homem solitário, bastante doente e desiludido com a vida, revivendo lembranças de um passado feliz compartido em trinta e cinco anos com a esposa, Dona Carolina.

Machado aborda em seus últimos trabalhos essencialmente temas existenciais como o amor, a paixão, a solidão, a velhice e a morte, assim como impressões e reflexões sobre o tédio, a ausência de sentido e horizonte da própria vida.

Obra semiautobiográfica, não por acaso D. Carmo, esposa do banqueiro Aguiar e o “Memorial de Aires”, assim como o narrador, o conselheiro Marcondes de Aires, possuem as mesmas iniciais de sua defunta esposa e dele mesmo.

Ao visualizar a viúva Noronha, Fidélia, o narrador, viúvo e aos 62 anos, tal qual Machado, sente-se tocar pela beleza da mulher. Sua irmã Rita, que o acompanha, lhe insinua uma paixão outonal, ao que ele responde a la Shellei: “I can give not what men call love.”Só lhe cabia, naquela altura da vida, uma paixão estética.

E, a seguir, nos traz uma deliciosa reflexão a respeito do nome dado às pessoas na pia batismal: “Antigamente, quando eu era menino, ouvia dizer que às crianças só se punham nomes de santos ou santas. Mas Fidélia…? Não conheço santa com tal nome, ou sequer mulher pagã. Terá sido dado à filha do barão, como a forma feminina de Fidélio, em homenagem a Beethoven? Pode ser; mas eu não sei se ele teria dessas inspirações e reminiscências artísticas. Verdade é que o nome da família que serve ao título nobiliário, Santa-Pia, também não acho na lista dos canonizados, e a única pessoa que conheço, assim chamada, é a de Dante: Ricorditi di me, che son la Pia”.

E conclui o raciocínio de um modo absolutamente futurista: “Parece que já não queremos Anas nem Marias, Catarinas nem Joanas, e vamos entrando em outra onomástica, para variar o aspecto às pessoas. Tudo serão modas neste mundo, exceto as estrelas e eu”.

Fidélia, mesmo sem chorar, mantém um luto fechado pela morte do marido, que ao conhecer Tristão, se abrirá para um novo amor. Diz Aires: “Não gosto de lágrimas, ainda em olhos de mulheres, sejam ou não bonitas; são confissões de fraqueza, e eu nasci com tédio aos fracos. Ao cabo, as mulheres são menos fracas que os homens — ou mais pacientes, ou mais capazes de sofrer a dor e a adversidade…”

A inserção histórica do último romance machadiano.

O período de tempo reportado na obra foram os anos de 1888 e 1889. A presença aparentemente tênue da Abolição no Memorial de Aires tem dado margem à suposição que Machado de Assis, em seu último trabalho, não trata de questões histórico-sociais, mas apenas de aspectos da vida íntima e particular. Isto é absolutamente incorreto.

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8 maio 2017, por

Cogito, 4.

O Sofrer
Sofrer, descer às profundezas da alma, sorver lentamente, gole após gole o fel amargo do ser consciente. Os judeus-cristãos acreditam que através do sofrimento o homem se torna melhor, aproxima-se da divindade, purifica-se. Blasfemos, que logro nos impingem desde a mais tenra idade. Sofrer jamais tornou alguém melhor, tão e simplesmente mais profundo, da profundidade do poço escuro da alma inquieta.

O Julgar
O rio Lete de nossa existência é sempre turbulento, complexo e confuso. O que nos permite entrar na barca onde nossa alma se sufoca e participar de nosso próprio julgamento? Pois julgamos todo o tempo, a tudo e a todos, pois ao julgar nos absolvemos. Somente acusando calamos a consciência acusadora. Assim nos satisfazemos.

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Ele é um homem dos mares, um poeta das águas, e por assim ser, retém a estranha e misteriosa magia das criaturas marítimas, aquela das sereias, dos polvos e das lulas gigantescas que, ao mesmo tempo que nos atraem, causam certa repulsa: elas não nos são apreensíveis.
Sou como todos os poetas das águas; costumamos perder a capacidade de encontrarmos a nós mesmos; além disso, poucos possuímos a habilidade de nos misturarmos aos outros humanos. Isso nos leva a dar as costas à vida e a mergulhar no abstrato, nos nossos próprios elementos. Por isso mesmo entendo Melville em suas entranhas.
Talvez poucos poetas antes dele tenham detestado tão instintivamente a vida humana, ou melhor, a sociedade como a vivemos. Restava-lhe sempre a necessidade de lutar contra o mundo inteiro real, e, assim o fazendo, lutar também contra uma parcela do mais íntimo de seu ser.
Mas esse é apenas o verso da moeda chamada Melville, pois ao mesmo tempo, ninguém esteve mais apaixonadamente repleto do sentido de vastidão e do mistério da vida não humana que ele.

No mar, assim como eu, ele busca sua fuga! Fugir, deixar a vida para trás, cruzar um horizonte que o levasse a uma outra vida, ao seu elementar. Quando Herman entra no oceano à bordo de um barco, encontra o seu ambiente natural, sua verdadeira casa. Na bagagem, muitas memórias, recordações daquele que atravessou o “Rubicon” da própria vida: ele não aceita mais a humanidade e ao não aceitá-la, deixa de sentir-se parte dela. Que lhe importa que a vida se fragmente, que até os acasalamentos e as procriações cessem? Que o tritão se afaste da fêmea, que o homem abandone sua fêmea e seus filhos e que as mulheres-sereias só se lambuzem com as águas? Com os lares desfeitos, corroídos, restam-lhe tão somente os elementos do imenso e interminável mar.
Basta de terra para seres como Melville, Herman e eu próprio! Venham todos os elementos até nós, mas que eles nada tenham a ver com as complicações criadas pela humanidade. A nós, os párias do imenso, do velhíssimo oceano Atlântico ou do Pacífico, que se abre com todas as suas “porias” para os Argonautas dos séculos XIX e XX

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7 maio 2017, por

Cogito, 3.

A RESPEITO DO TEMPO DA RESISTÊNCIA AO FASCISMO
Tempo aquele de sombras e crenças fortes, ideias definitivas e doação integral. Um tempo sem paz, recheado de violências inauditas, aliás nisso diferindo muito pouco de toda a história dessa velha humanidade. Mas, que, comparativamente aos dias de hoje, eram mais intensos e apaixonados, repletos de idealismos, de utopias que exigiam de muitos dos que se inconformavam o arrebatamento total; onde a pureza, a ingenuidade, a descoberta, seguiam às vezes pela mesma senda em que caminhavam a imprevidência, a quebra dos limites, a desmedida. Era o Espírito do Tempo.
O Espírito do Tempo pode até mesmo ter o seu perfume aspirado nas linhas traçadas pelas mãos habilidosas de um narrador, não o seu sabor, pois ele é reservado exclusivamente para aqueles que o vivenciaram. E assim também ocorrerá num futuro, quando memórias do presente receberem sua própria pátina de antiguidade e vierem a ser contadas.
Isto também porque o mundo não é criado de uma vez por todas para cada um de nós; ele vai, no decorrer da vida, acrescentando coisas, novos seres de que nem suspeitávamos. Quando quase nada subsiste de um passado antigo, depois da morte de nossos amigos, depois da destruição das coisas, aqueles seres permanecem sozinhos, incrustados em nossa memória inconsciente, muito frágeis porém mais vivazes, imateriais, mas persistentes, mais fiéis que as outras sensações percebidas.
Assim se formata o Espírito de um Tempo que foi de resistência!

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7 maio 2017, por

Cogito, 2.

AMOR E DEPRESSÃO
O amor nos abandona de tempos em tempos ou, o que dá no mesmo, nós é quem abandonamos o amor. E quando nos sentimos despidos de amor o sentimento que nos resta é o da insignificância.
Um autor disse que a depressão é a imperfeição do amor, ou seja, a depressão seria o desespero perante as perdas, o mecanismo mesmo desse desespero.
Quando a depressão nos assola, ela cria uma barreira através da qual desaparece a nossa capacidade de dar e receber afeto. Surge a solidão e com ela os vínculos com outros se rompe e afeta a capacidade da pessoa apaziguar-se consigo mesma.
Já o oposto da depressão é a capacidade de amar. Dizia Dostoievski “O segredo da existência humana reside não só em viver, mas também em saber para que se vive.” Podemos amar a nós mesmos, amar a outros, amar ao próprio trabalho, amar a Deus, de tal forma que qualquer um desses vínculos nos fornece pontes vitais para evitarmos a depressão.

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Em Proust o prazer, a dor, o sofrimento, a libertação e a loucura conectam-se ao amor e à paixão, aos prazeres do sexo, à necessidade da posse, às dores da perda.
Entramos na esfera de influência do “deus máscara” dos povos antigos: Dionísio para uns, para Baco para outros. Aquele que é, diferentemente de todos os outros deuses de todos os tempos e crenças, a quem as orações e sacrifícios jamais contentam; o deus que em sua relação com os homens não admite o “dar e receber”, a moeda de troca inexiste. Tampouco exige piedade ou gestos caridosos. Dionísio exige do homem o total arrebatamento, o deus apenas se satisfaz quando logra apossar-se de todo o ser humano. E nesta posse, delícias das delícias nos esperam: dela emanaram o êxtase e a ultrapassagem de todas as medidas; o deus capaz de conduzir-nos, os mortais, desde o mais profundo horror ao mais alto patamar da realização da alma humana.
O “deus-máscara”, como um avatar, metamorfoseia-se em humano e age como tal, utilizando a cada aparição uma de suas ”personnas” disponíveis; aquele deus que na verdade se assume como um homem divinizado, ou se quisermos, como um deus humanizado. Dionísio arrasta, àqueles que consentem na sua incorporação, à felicidade e ao autoconhecimento supremo, assim como à loucura e à destruição. É quando nós nos assumirmo enquanto instinto, o que significa como natureza viva.
Mas esta supremacia dos instintos pode nos conduzir à loucura. As drogas em Proust constituem um passaporte para a alienação. Como um contraponto que torne possível a vida social.
Enquanto muitos cultivam tão somente seus “dionísios”, a sua libertação do espírito e dos instintos, mesmo dos mais recônditos, dos mais violentos e libertinos, que possibilitam a incontida de volúpia e crueldade, outros, tal qual os gregos, erguem no mesmo patamar de importância, a figura monumental e sóbria de Apolo.
Em Nietszche, “o sonho se opondo à embriaguês”. O sonho de um mundo dirigido pela verdade, pelo “logos” da sabedoria, pela beleza fulgurante do sol, gerador da beleza, em um mundo que é onírico mas que pode ser o real, pois é formatado pelo essencial.
Foi o deus délfico, Apolo, quem “restringiu-se a retirar de seu poderoso oponente, Dionísio, as armas destruidoras, mediante uma reconciliação do consciente e do inconsciente, concluída no seu devido tempo”.
Pois enquanto o carro que conduz Dionísio está coberto de flores e grinaldas, conduzido pela pantera e pelo tigre, propiciando ao homem a liberdade, permitindo-lhe que “viva” e liberte seus instintos e seu inconsciente, que busque seu “extasis”, surge com o seu caminhar alado, lado a lado, um outro carro, aquele do deus Apolo, rodeado por suas Musas a dançar e a cantar ao ritmo ditado por uma citera, o próprio portador da harmonia, da beleza onírica, da verdade, do poder do “logos”, com sua coroa de louros premonitória doada pelo amor por Dafne, natureza incorporada. E é fruto desta união, do conflito e da harmonização entre Dionísio e Apolo, entre o consciente e o inconsciente, da natureza e da consciência humana, que nasceu o melhor da arte grega, quiçá o melhor da arte de todos os tempos.
E o século XX, tão insensato quanto dionísico, e assim, utópico ao mesmo tempo que “niilista”, mas também libertário e opressivo, positivista, descobre toda a grandiosidade do irracional; brutal quando das trevas mas libertário quando surge o sol; este novo século, que já ao surgir herdou a velhice de toda humanidade, mas que no alvorecer produziu um de seus mais belos frutos literários: “Em Busca do Tempo Perdido”.

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Um dos assuntos que Proust se dedica a explorar com profundidade são as diferentes facetas que o “eu” apresenta, a dissociação dos estados da alma, a independência dos elementos que compõem a vida interior, e, em decorrência disso, a multiplicidade da personalidade.
Para o autor, o homem é o ser que se dissipa e dissocia. Nada permanece estável e uniforme nem mesmo naquilo em que se toca. Tudo se move e decompõe incessantemente, resultando a precariedade da realidade: “O relativo para mim é o absoluto e quaisquer valores permanentes ou supremos perderam seus sentidos, quer se trate de valores sociais quer psicológicos.”
O que se chama experiência não passa da revelação a nossos próprios olhos, um traço de nosso caráter que reaparece naturalmente, e o faz com tanto mais força quanto o havíamos revelado a nós mesmos uma vez, de tal modo que mesmo um movimento espontâneo se encontra reforçado por todas as sugestões da lembrança.
“Marcel pondera que talvez nele, e em muitas outras pessoas, o segundo homem em que se tornara, o seu duplo, fosse simplesmente uma faceta do primeiro, exaltado e sensível ao lado de si próprio, daquele Marcel ajuizado.” A dúvida é em qual deles Marcel desejaria se transformar? Ou não seria o caso de transformação e como a deusa das duas faces dos romanos, cada uma delas virada para o lado oposto à outra, ele apresentaria socialmente a que mais lhe agradasse a cada momento. Essa capacidade de multipliciadade transforma o homem em um ser sempre múltiplo, complexo e dificilmente acessível.
É importante assinalar que, diferentemente de Pirandello, tanto a multiplicidade quanto a dissociabilidade do eu mantém como paradigma a permanência de um elo, que Proust caracteriza como a matéria essencial de todo o ser. Ela permanece sendo a mesma e única até a morte, dando consistência àquelas diferentes facetas da personalidade. “Em muitos seres há diversas facetas que não se assemelham; conhece-se uma, depois a outra, mas no dia seguinte a ordem se inverteu, mas é e será sempre o mesmo ser, em sua essência.”
“Podemos nos entregar, à nossa escolha, a uma ou outra de duas forças: uma se ergue de nós mesmos, emana de nossas impressões profundas; a outra nos vem de fora. Acredito que trabalhamos a todo instante para dar uma forma à nossa vida, mas copiando, malgrado nosso, como um desenho, os traços da pessoa que somos e não daquela que nos agradaria ser.” Isso de certa forma desenvolve em nosso íntimo uma certeza de nossa incapacidade de nos transformarmos, como se perseguíssemos uma sombra sem jamais conseguir tocá-la.
O Tempo transforma nosso “eu”. O narrador utiliza como exemplo um livro que já lemos, uma música que ouvimos no passado, que se associaram tão fielmente ao que éramos então, que só podem ser sentidos e repensados pela pessoa que éramos naquele tempo. “Mas não nos afligimos de nos havernos tornado outro devido à passagem do tempo, mais do que nos afligiríamos, em certa época, por termos sido, alternativamente, indivíduos contraditórios. O malvado, o sensível, o delicado, o patife, o desinteressado, o ambicioso, como alternativamente o somos também todos os dias.”
“Alguns desejam apaixonadamente que haja uma outra vida, onde seriam iguais ao que idealizariam para si nesse mundo. Mas não é necessário esperar pela outra vida; nesta daqui mesmo, ao fim de alguns anos, tornamo-nos infiéis ao que fomos, ao que desejaríamos imortalmente permanecer. Ainda sem supor que a morte nos modifique mais do que essas mudanças que se dão no curso da vida, se nessa outra vida encontrássemos o eu que já fomos, desviar-nos-íamos de nós mesmos, como dessas pessoas com quem já não nos damos há tanto tempo. Sonha-se muito com o paraíso, ou antes, com inúmeros paraísos sucessivos, mas são todos, ainda antes que se morra, paraísos perdidos e onde a gente se sentiria, por sua vez, perdido.”
As sucessivas “personnas” que terminamos sendo, entretanto, interagem e dependem da nossa vontade.“Vejo a vontade como uma serva perseverante e imutável de nossas personalidades sucessivas; ela oculta-se na sombra, mesmo que desdenhada, mas incansavelmente fiel, trabalhando sem cessar e sem preocupar-se com as variações de nosso eu, para que não lhe falte nada do que necessite. Tudo quanto tem de mutáveis a sensibilidade e a inteligência, tem-no ela firme; mas como é calada e não expõe seus motivos, quase parece que não existe, e as partes restantes do nosso eu obedecem às decisões da vontade sem dar por isso, ao passo que, por outro lado, percebem muito bem suas próprias incertezas.”
Mesmo a imagem que possuímos das pessoas está em nós mesmos e não naquela que se encontra em frente da gente. “Nossos leitores devem saber que descobrir a verdadeira vida do próximo, o universo real que subexiste sob o universo aparente, causa-nos tanta surpresa como visitar uma casa de boa aparência e encontrá-la cheia de tesouros, cadáveres e ferramentas; e não é menor a surpresa quando, em vez da imagem que havíamos formado de nós mesmos, graças ao que dizem da gente, certificamo-nos pelo que essas pessoas dizem quando estamos ausentes da imagem inteiramente diversa que guardam de nós e da nossa vida.”

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